O governo brasileiro anunciou nesta segunda-feira, 6 de janeiro, a adesão da Indonésia ao Brics, grupo composto por economias emergentes que busca fortalecer o Sul Global e reduzir a dependência do dólar no comércio entre seus membros.

A decisão de incluir a Indonésia no bloco já havia sido aprovada durante uma cúpula de líderes na África do Sul, em agosto de 2023. No entanto, o país asiático preferiu oficializar sua entrada apenas após as eleições presidenciais de 2024, que elegeram Prabowo Subianto, um ex-general de 73 anos, como presidente.
Aprovação unânime dos membros do Brics
O Ministério das Relações Exteriores informou que a entrada da Indonésia no Brics foi aprovada por consenso durante a cúpula realizada em Joanesburgo, na África do Sul. A Indonésia, com uma população estimada em 270 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 1,4 trilhão, é o país mais populoso e a maior economia do Sudeste Asiático.
Esses números reforçam a relevância do país no cenário econômico global. O governo brasileiro destacou sua satisfação com a adesão do novo membro, transmitindo suas felicitações por meio de um comunicado oficial emitido pelo Itamaraty.
Fortalecimento do Sul Global e ampliação do bloco
O governo brasileiro também enfatizou que a Indonésia compartilha os mesmos objetivos prioritários da presidência brasileira no Brics, como o fortalecimento do Sul Global e a promoção de reformas nas instituições globais de governança. Essa visão comum contribui para o alinhamento estratégico entre os países-membros, fortalecendo o bloco como uma força política e econômica conjunta.
Até 2023, o Brics era composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Porém, durante a cúpula de Joanesburgo, o grupo deu um passo significativo em direção à sua ampliação ao incorporar novos membros. Países como Egito, Irã, Emirados Árabes Unidos e Etiópia foram aceitos no bloco, enquanto a Arábia recebeu um convite saudita, mas ainda não oficializou sua adesão.
Novas parcerias e limites de expansão
Além dos novos membros plenos, os Brics estabeleceram parcerias estratégicas com países como Turquia, Argélia, Bielorrússia e Bolívia, que agora possuem status de parceiros, mas sem os mesmos direitos de participação plena no grupo.
Por outro lado, pedidos de adesão de países como a Venezuela foram negados. A recusa, em parte influenciada por um veto do Brasil, foi justificada pela instabilidade política e pelas controvérsias associadas às eleições presidenciais venezuelanas de julho de 2024.
O Brics continua a se consolidar como um dos principais blocos de cooperação entre economias emergentes. Sua capacidade de atrair o interesse de nações em diferentes continentes demonstra sua relevância crescente no cenário internacional.
A ampliação do grupo e o estabelecimento de parcerias estratégicas reforçam sua influência global, enquanto o bloco busca equilibrar sua expansão com a preservação da estabilidade interna e dos princípios que o guiam.
Qual é o papel do Brics na economia global?
O Brics, atualmente composto por 10 países membros permanentes e 13 países parceiros, é um bloco econômico que tem se tornado cada vez mais relevante no cenário econômico global. Juntos, os países do Brics, incluindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, respondem por 31,5% do PIB mundial e abrigam 45,2% da população global. Esses números destacam a importância econômica do grupo, que se tornou um importante player internacional.
Além dos impressionantes dados econômicos, o Brics tem intensificado seus esforços para criar um novo modelo de governança econômica. O grupo busca alternativas ao sistema financeiro internacional tradicionalmente dominado pelo sistema de Bretton Woods e pela hegemonia do dólar norte-americano.
A estratégia de desdolarização do Brics
Uma das principais metas do Brics é reduzir a influência do dólar nas transações internacionais. O processo de “desdolarização” é visto como uma forma de diminuir a dependência dos países emergentes em relação aos Estados Unidos, que historicamente utilizaram a moeda americana como uma ferramenta de influência geopolítica. A presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), Dilma Rousseff, durante a última Cúpula do Brics, criticou a prática dos EUA de usar o dólar como uma espécie de “arma” financeira.
Embora ainda esteja em estágio inicial, a ideia de criar uma moeda própria para o bloco evidencia a intenção do Brics de estabelecer alternativas ao atual sistema financeiro global. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, mencionou que esse projeto também inclui a criação de um sistema de pagamentos alternativo ao Swift, com o objetivo de contornar sanções econômicas e facilitar o comércio entre os países membros.
Reformas nas instituições financeiras internacionais
O Brics também busca reformar importantes instituições financeiras globais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que muitos países membros do bloco consideram excessivamente influenciados pelos Estados Unidos e pela Europa.
Roberto Dumas, professor de economia chinesa do Insper, destaca que o Brics tem se consolidado como uma alternativa para países que, historicamente, não têm uma voz forte nessas instituições. A criação do NBD, com sede em Xangai, é um exemplo claro disso, oferecendo financiamento para projetos de desenvolvimento nos países membros, sem a necessidade de recorrer a bancos ocidentais.
A expansão do Brics também tem sido uma etapa importante para o fortalecimento do grupo. Com a recente inclusão de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia, o bloco se torna ainda mais diverso e inclusivo, ampliando seu alcance geopolítico e criando novas oportunidades para a construção de uma ordem econômica multipolar. A entrada de novos membros reflete a crescente atratividade do Brics para países que buscam uma alternativa ao sistema econômico ocidental.
O papel do Brasil no Brics
O Brasil desempenha um papel central dentro do Brics, utilizando o bloco como uma plataforma para projetar seu poder econômico e político e para defender o multilateralismo. Segundo o professor William Daldegan, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o Brasil se beneficia ao estreitar laços com outras nações emergentes, ganhando maior influência nas decisões globais.
Apesar das críticas de alguns setores sobre a aproximação do Brasil com o bloco, a participação no Brics oferece ao país uma oportunidade valiosa de fortalecer sua posição em fóruns multilaterais e influenciar políticas globais. Além disso, permite ao Brasil diversificar suas relações comerciais e financeiras, reduzindo a dependência de mercados tradicionais, como os dos Estados Unidos e da Europa.
O futuro multipolar do Brics
Desde a sua criação em 2001, o Brics evoluiu de uma simples ideia para um bloco estratégico que promove a cooperação entre economias emergentes. A busca por uma nova governança financeira é um reflexo do desejo dos países membros de construir um sistema global mais justo e equilibrado.
Embora a criação de uma moeda comum ou de um sistema financeiro totalmente independente do Ocidente ainda esteja distante, os avanços alcançados até agora demonstram o potencial do Brics para transformar a economia global.
Com sua contínua expansão e consolidação, o Brics se estabelece não apenas como uma alternativa econômica, mas também como um movimento que busca criar um equilíbrio maior no cenário internacional. Para o Brasil, fazer parte do Brics é uma oportunidade estratégica para se posicionar como um líder em um mundo que se torna cada vez mais multipolar.
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